'Devastada', desabafa mãe sobre a dor que atravessa toda família impactada pelo feminicídio de uma jovem de 18 anos em MG
Dhandara Kellen Ferreira, encontrada morta em um matagal no Bairro Paraíso em Divinópolis 13-09-2025 Reprodução/Redes Sociais O Dia Internacional da Mulher,...
Dhandara Kellen Ferreira, encontrada morta em um matagal no Bairro Paraíso em Divinópolis 13-09-2025 Reprodução/Redes Sociais O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 8 de março, é tradicionalmente uma data para refletir sobre os desafios e conquistas da jornada feminina, da desigualdade no mercado de trabalho à busca por direitos fundamentais. Mas, em 2026, os números impõem uma reflexão mais urgente: o risco que corre a vida das mulheres brasileiras. Mais do que uma data de celebração, o momento exige olhar para uma realidade que atravessa famílias e deixa marcas permanentes. O motivo é estatístico e cruel: em 2025, o Brasil atingiu o topo da série histórica de violência contra mulheres, com quatro feminicídios registrados por dia e dez tentativas de assassinato a cada 24 horas. O reflexo desse cenário também chega a Divinópolis. O número de feminicídios consumados na série histórica de 2019 a 2025 cresceu 300%, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A morte de Dandhara Kellen, aos 18 anos, é apenas um dos casos, e não interrompeu apenas uma vida cheia de sonhos, mas deixou um vazio que ecoa todos os dias dentro de casa, alterou a rotina, a saúde emocional e a forma como a família inteira enxerga o mundo. A jovem foi encontrada morta em um matagal após uma emboscada no Bairro Primavera em setembro de 2025. O principal suspeito é um adolescente de 17 anos com quem ela mantinha um relacionamento conturbado havia cerca de três anos. Outro adolescente, também de 17, é investigado por participação no crime. Em nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que os dois adolescentes suspeitos do crime estiveram em cumprimento de medida de internação no sistema socioeducativo de Minas Gerais em 2025. A pasta acrescentou que não irá divulgar mais detalhes para preservar a integridade dos adolescentes, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O caso, é mais um feminicídio que expõe uma realidade que, segundo a mãe de Dandhara, Jannes Kellen, parece se repetir com frequência cada vez maior. “Parece que depois do caso da minha filha começou a chover mulher morrendo. O ser humano perdeu o medo de matar”, desabafou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp A investigação e a causa morte no obituário apontaram que a jovem foi estrangulada. “Foi uma armadilha. Ele chamou ela. Tudo indica que tentou simular um suicídio. Minha filha estava nua e com a corda do macaquinho [peça de roupa] que usava no pescoço”, afirmou. Dhandara em foto com a mãe, Jannes Kellen Janes Kellen/Arquivo Pessoal A dor é atravessada por lembranças de sinais claros de que o relacionamento não era saudável: o adolescente suspeito já havia agredido Dandhara na porta da escola, com um chute no rosto da jovem. “A gente falava para ela parar de ficar com ele. Não era um namoro assumido, os dois ficavam com outras pessoas, mas ela sempre estava presa a esse menino”, disse. Nos cadernos da filha, a mãe encontrou o nome dele escrito ao lado de declarações de amor. “Ela tinha o nome dele anotado, escrito ‘eu te amo’. Sabíamos da existência dele, mas não conhecíamos”. Para Jannes, a filha, que perdeu o pai assassinado quando tinha 9 anos, pode ter desenvolvido uma dependência emocional. “Na minha visão, ela era refém de um sentimento que achava que era amor”. Ausência que atravessa toda a a família Dentro de casa, o impacto foi imediato e permanente. “É um buraco, um silêncio. Não ter ela mais. A casa ficou vazia”, descreve. Dandhara ajudava a mãe a cuidar do irmão mais novo, João Henrique, de 12 anos. Desde a morte da irmã, o menino passou a apresentar mudanças de comportamento. “Na escola, falta atenção. Às vezes está mais ríspido, mais calado. Precisou buscar atendimento psicológico. Dhandara quando era pequena Janes Kellen/Arquivo Pessoal A avó com quem Dandhara morava desde pequena também se fechou. “Minha mãe está traumatizada, com medo, não aceita ajuda. Meu irmão mais novo também se fechou. Eu e toda minha família fomos destruídos, fomos devastados. A gente segue porque tem que seguir, porque forças não existem”, disse. Jannes, que trabalha com vigilância armada patrimonial, retornou ao serviço 20 dias após o crime. Estava de férias quando tudo aconteceu. “Voltei aos poucos. Ficar em casa seria pior. Trabalhar é mais um motivo para manter minha cabeça no lugar. Ainda assim, o choro é frequente. Tem hora que a gente consegue falar sem chorar, mas tem hora que desaba. Foram 18 anos com minha filha, minha companheira. Eu tinha 17 quando ela nasceu. Foi muito esperada, para meus pais, a primeira neta. Sempre alegre, carinhosa, cheia de amigos, cheia de sonhos”, lembrou. A adolescente era focada nos estudos e tinha o sonho de prestar concurso público e ser mãe. No próximo dia 17 de março completaria 19 anos. “Eu tento me aproximar dela estudando, porque era o sonho dela. Dessa forma penso que estou dando um novo sentido à vida, sendo que o sentido da vida foi embora”. Além da dor, o medo da violência Além da saudade, o medo passou a fazer parte da rotina. A mãe instalou câmeras na residência. “Ela levou ele na minha casa, na casa da minha mãe. Não sei do que mais ele pode ser capaz. Ainda temos que conviver com medo dele, sem nem saber quem é direito". Diante do crime de feminicídio que vitimou a filha, Jannes conta que ampliou um receio antigo. “Já tinha medo de colocar um homem dentro de casa com uma filha adolescente. Agora, mais ainda. Se eu for namorar um dia, será cada um na sua casa”. Para ela, o feminicídio é reflexo de uma cultura de machismo e ego que precisa ser enfrentada com urgência. “Não está tendo amor ao próximo mais. O mal existe e está gritando na sociedade. A mulher não pode calar. No primeiro grito tem que cortar na raiz.” A mãe afirma que entregou a dor a Deus e acredita que os culpados vão pagar. “Pela fé que eu tenho, eles vão pagar. Ele tem uma família também.” Ainda assim, a revolta é constante. “Eu me pergunto: por que comigo? A dor que sinto não desejo para ninguém.” A morte de Dandhara é uma ausência que ecoa nos corredores de casa, nas cadeiras vazias à mesa, no caderno que ficou, nos planos interrompidos. “É devastador. É pesado demais. É uma ferida que não fecha. A ficha cai todo dia que ela não está mais aqui. É saudade eterna.” Ao transformar o luto em alerta, Jannes deixa um apelo às mulheres: “Se priorizem. Não adianta pensar que não vai acontecer. Pode acontecer. E quando acontece, destrói tudo.” Feminicídios: barbárie crescente Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) revelam um cenário alarmante em Minas Gerais. Em 2024, foram registrados 248 feminicídios consumados e 169 tentados. Já em 2025, os números apontam 177 casos consumados e 207 tentados, demonstrando um aumento nas tentativas e a persistência da violência letal contra mulheres. Em Divinópolis, o número de casos de feminicídio apresenta oscilação ano a ano, registrando um grande aumento em 2025, quando a cidade passou de 0 para 5 feminicídios tentados. Já na série histórica de 2019 a 2025 os feminicídios consumados cresceram 300% . Além disso, Divinópolis é a cidade mais perigosa para mulheres da 7ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp), apresentando os maiores números de feminicídios tentados e consumados da área. Sozinha, Divinópolis representa 13,4% dos feminicídios tentados e 16,88% dos consumados na região entre 2019 e 2025. "Quando um feminicídio acontece, muitas vezes a sociedade reage como se fosse um caso isolado ou um ‘surto’. Mas, do ponto de vista psicológico e social, não é surpresa nem exceção. Esses crimes são resultado de uma cultura que historicamente coloca as mulheres em posição de vulnerabilidade e naturaliza comportamentos de controle e violência por parte de homens. Enquanto tratarmos esses casos apenas como tragédias individuais, sem enfrentar as estruturas que os permitem, o ciclo de violência tende a se repetir, a barbárie tende a crescer", destacou a psicóloga Marina Saraiva. LEIA MAIS: Jovem que estava desaparecida há três dias é encontrada morta no bairro Primavera, em Divinópolis Mãe de jovem encontrada morta em Divinópolis desabafa: 'Quero justiça pela minha filha' Quem era a estudante encontrada morta em matagal em Divinópolis VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas