Não foi só pão e mel: recorde na maratona envolveu intestino treinado para absorver alto volume de carboidratos
Não foi só pão e mel: recorde na maratona envolveu intestino treinado para absorver alto volume de carboidratos REUTERS/Matthew Childs / Adobe Stock O quenia...
Não foi só pão e mel: recorde na maratona envolveu intestino treinado para absorver alto volume de carboidratos REUTERS/Matthew Childs / Adobe Stock O queniano Sebastian Sawe entrou para a história ao completar a Maratona de Londres em 1h59min30s, tornando-se o primeiro a correr 42 km em menos de duas horas em uma prova oficial. O que chamou atenção foi a refeição pré-largada: duas fatias de pão, mel e chá. Mas isso, isoladamente, não explica o feito. Por trás do recorde, houve uma estratégia nutricional sofisticada, baseada em alto consumo de carboidratos antes e durante a prova, uso de tecnologias para melhorar a absorção intestinal, suplementação planejada ao longo do percurso e até um tênis de 97 gramas com placa de carbono. Durante a corrida, Sawe ingeriu cerca de 230 gramas de carboidratos — valor bem acima das recomendações tradicionais. A reposição foi feita a cada 5 km, com géis, bebidas, cafeína e um hidrogel desenvolvido para facilitar a absorção sem causar desconforto gastrointestinal. Nos dias anteriores, ele já vinha consumindo bebidas ricas em carboidratos para maximizar os estoques de glicogênio. Antes da largada, ingeriu bicarbonato. Também tomou um gel energético antes de começar e outro com cafeína na metade do percurso. O próprio acompanhamento científico do atleta mostrou, por meio de rastreamento com carbono-13 na respiração, que ele chegou a utilizar quase 100 gramas de carboidrato por hora por volta do km 30 — um limite considerado próximo do máximo que o corpo humano consegue sustentar hoje. Vídeos em alta no g1 O que realmente sustenta quase duas horas nesse ritmo Nutricionistas explicaram ao g1 que o pão e o mel funcionam porque são carboidratos simples, de rápida absorção, que evitam desconfortos gástricos. Mas isso só é suficiente porque o atleta já largou com os estoques cheios. Um maratonista de elite pode ter entre 400 g e 800 g de glicogênio armazenados entre músculos e fígado. Esse estoque é resultado da alimentação dos dias anteriores e não da refeição leve da manhã, explica o nutricionista Eduardo Reis, membro do departamento científico da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE). Durante a prova, a ingestão contínua de carboidratos é decisiva para manter a glicose no sangue, retardar a fadiga e poupar parte do glicogênio muscular. Especialistas destacam que, sem essa combinação - de estoques elevados e ingestão durante a corrida - uma refeição leve isolada aumentaria o risco de quebra. Segundo o Reis, a estratégia adotada por Sawe prioriza o esvaziamento gástrico eficiente aliado à manutenção da glicemia. “Para um atleta que corre a quase 21 km/h, o conforto gastrointestinal é tão importante quanto a energia disponível”, afirma. Quando ocorre a quebra A chamada quebra não tem um quilômetro exato. Ela surge da combinação de redução acentuada do glicogênio; dificuldade de manter a glicose no sangue, desidratação, aumento da temperatura corporal e fadiga neuromuscular, explica a doutora em Ciências Nutricionais e Metabolismo pela Unicamp, Heloisa Castanheira Santo André. A estratégia de Sawe foi desenhada justamente para impedir que esses fatores se acumulassem. O risco de queda de energia existe quando a refeição leve é a única estratégia e não há preparo adequado. No caso de atletas de elite, esse risco é menor por dois fatores principais: eficiência metabólica, que permite maior uso de gordura como fonte de energia; suplementação contínua durante a prova, com ingestão de géis e bebidas. “Um corredor que chega à prova com baixos estoques de glicogênio, que não se alimentou bem nos dias anteriores ou que não consome carboidrato durante a corrida pode ter queda de rendimento. Mas, no caso de um atleta de elite, essa refeição leve é combinada com uma preparação nutricional anterior e com ingestão planejada de carboidratos durante a prova”, destaca Santo André. Por que carboidratos simples são centrais na estratégia Pão e mel aparecem na história porque representam uma combinação eficiente de glicose e frutose, que usam transportadores diferentes no intestino e aumentam a capacidade de absorção de energia. Mas, na prática, alimentos como arroz, banana, mingau, bebidas esportivas e géis cumprem o mesmo papel. O ponto central não é o alimento em si, mas a capacidade do corpo de absorver grandes quantidades de carboidrato sem sofrer com o intestino, algo que exige adaptação durante os treinos, destaca Santo André. “O pão fornece glicose e o mel oferece glicose e frutose. Essa combinação utiliza diferentes transportadores no intestino, o que maximiza a absorção de energia sem sobrecarregar o sistema digestivo”, acrescenta Reis. Tecnologia e fisiologia entram na conta O desempenho também contou com fatores que vão além da nutrição: tênis ultraleve com placa de carbono, da linha Pro Evo da Adidas, com 97 g; uso de hidrogel para melhorar a absorção intestinal; controle antidoping rigoroso com testes surpresa a cada três dias; características físicas que reduzem o gasto energético, como pernas longas e panturrilhas finas; economia de corrida típica de atletas quenianos, que podem gastar até 20% menos energia por quilômetro. Essa eficiência faz com que eles usem menos glicogênio por minuto e consigam transformar melhor o carboidrato ingerido em energia útil. Quanto carboidrato é necessário Não existe um valor único, mas recomendações gerais indicam: 1 a 2 horas: cerca de 30 g por hora 2 a 3 horas: cerca de 60 g por hora mais de 3 horas: cerca de 90 g por hora Sawe ultrapassou esses valores, chegando perto de 100 g por hora em parte da prova — algo possível apenas com treino intestinal, mistura de glicose e frutose e tecnologia de absorção. O que a história realmente mostra A refeição leve antes da largada não foi o segredo. Ela foi apenas a etapa final de uma engrenagem que envolveu: nutrição planejada por dias, estoques máximos de glicogênio, ingestão contínua de carboidratos, tecnologia para absorção, suplementação estratégica, economia biomecânica e equipamento de ponta. Sem esse conjunto, pão e mel seriam apenas pão e mel. LEIA TAMBÉM: O que comer para viver mais: os alimentos mais estudados pela ciência ligados à proteção do coração e à maior longevidade De quanta proteína e fibra por dia você precisa? 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